Provas irrefutáveis de que estou velha sim

Quando eu tinha apenas 15 anos, eu resolvi sair da escola em que eu havia estudado a vida inteira para ir para um colégio que me preparasse melhor para o vestibular. Logo na primeira semana de aula, a realidade bateu em minha porta e eu passei a sentir as diferenças entre um colégio religioso que não permitia o uso de bijuterias e esmaltes escuros para uma instituição ~mundana~.

Minhas novas colegas de classe me chamaram para fumar narguile depois da aula e, depois de recusar o convite, fui prontamente taxada de velha. A partir disso, qualquer coisa, desde o meu All Star ser preto (juro!) até eu não gostar de ver vídeos no YouTube (parece que o jogo virou etc e tal), era motivo para comentários do tipo “nossa, mas é que a Gabriela é velha, né…”

Pode até ser que, na época, minha famigerada velhice não passasse de intriga da oposição, mas agora, sete anos e uma pancada de crises de identidade e existenciais depois, parece que estou velha sim e uma série de fatos comprovam isso:

#1 Não consigo mais acompanhar séries

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Se um dia existiu uma Gabriela que usava um bloco de notas para controlar todas as séries que assistia de acordo com os dias em que os downloads eram disponibilizados, hoje existe alguém que só consegue assistir a um episódio de 40 minutos por semana e só promete que um dia dará conta de uma grande lista de pendências televisivas.

#2 Tenho gostado de acordar cedo

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Sempre disse que não gostava muito de dormir e que achava isso uma perda de tempo. Apesar disso, o hábito de acordar antes do meio-dia aos finais de semana não existia em minha vida e, hoje em dia, apesar de precisar acordar cedo todos os dias, prefiro levantar antes das dez aos sábados e domingos para conseguir ~aproveitar~ os dias de folga.

#3 Penso mil vezes antes de sair à noite

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Tá certo que balada nunca foi o meu forte e que sempre preferi encontrar os migos para fazer algo mais tranquilo. Até uns anos atrás, esse algo tranquilo invariavelmente envolvia tomar sorvete no McDonald’s às duas da manhã, mas, neste momento da minha vida, a única coisa que eu quero estar fazendo às duas da manhã é abraçando o meu travesseiro durante um sono profundo.

Antes eu até podia topar ir à alguma festa à noite dois dias antes; agora, eu preciso de pelo menos um mês de preparação psicológica com chances altíssimas de eu acabar desistindo na última hora.

#4 Não consigo mais ter uma dieta baseada em besteiras

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Lembro-me de um dia ter me orgulhado de poder passar dias comendo só besteira e não sentir falta do arroz e do feijão. Sempre gostei de comer e é muito provável que isso é o que eu mais ame fazer na vida. A grande mudança está na maneira que eu passei a comer esse ano.

Depois de descobrir que tenho APLV, precisei me adaptar para sentir menos falta das besteirinhas que comia entre as refeições, o que incluiu comer quantidades absurdas de vegetais no almoço. Agora, um dia que não me alimento com verduras e legumes, sinto meu corpo implorando por um prato bem colorido.

#5 Não fico mais sabendo de eventos e inaugurações

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Para ser bem sincera, de todas as provas aqui reunidas, esta é a que mais me chateia. Não que eu tenha sido uma jovem muito antenada e uma grande frequentadora de restaurantes, bares e baladas em seus dias de glória (em Maringá, as coisas só bombam mesmo nos primeiros meses e, depois, definham até fecharem misteriosamente e se tornarem um grande existiu ou não existiu), mas antes os convites para eventos sempre apareciam no Facebook.

Quando comparamos, chega a ser estranho pensar que menos de um ano atrás, eu sabia das datas de todas as cervejadas e conseguia me decidir se iria a tempo de comprar convites no primeiro lote, agora eu só descubro no dia da festa e somente se vejo alguém andando com caneca de alumínio na rua. Eu sabia pelas fotos que meus ~amigos~ postavam quais eram os tipos humanos que frequentavam cada novo rolê, agora só vejo foto de criança recém-nascida nas minhas timelines.

São tempos estranhos. Eu não sei mais quem são os jovens da cidade, assim como não sei quais lugares eles frequentam e, se alguém me pergunta se eu já fui ao novo point da galera que tem nome ecofriendly, eu preciso me esforçar muito para entender que estão falando de uma balada e não de um bistrô.

#6 As estagiárias não entendem minhas referências

Como uma profissional formada e empregada, agora eu tenho chefes e estagiárias, o que me proporciona experiências quase que estarrecedoras. Meus chefes não são velhos e estão na casa dos 30 e, apesar de muitas das referências deles seres estranhas para mim, eles conseguem entender todos os meus comentários sobre a maravilhosa produção musical dos 90 e entendem minhas memórias mais remotas de lugares que já não existem mais na cidade.

Por outro lado, as estagiárias da agência assistiram a Meninas Malvadas vezes de menos, quase não se lembram de novelas mexicanas transmitidas pelo SBT, me olham como se eu fosse uma maluca por saber que o nome do vocalista do Twister era Sander e sequer entendem de que banda eu estou falando mesmo depois de ouvirem “meu amor / esse amor / dá 40 graus de febre / queima pra valer / queima pra valer”.

Dias atrás, compartilhei este tweet no chat do escritório e meus chefes riram comigo, mas logo em seguida tivemos que explicar para elas o caso Cicarelli.

#7 Meus maiores interesses estão ligados a ~dotes domésticos~

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Antes mesmo de eu aprender a ler e a escrever, eu aprendi a bordar ponto-cruz. Pouco tempo depois, minhas bonecas começaram ganhar roupas em modelos exclusivos costurados por mim, com direito a zíperes e botões. Aos 15 anos, eu bordei parte do enxoval de nascimento do irmão do meu ex-namorado. Desde que eu aprendi a acender o fogão sem causar acidentes, todo mundo que prova gosta da minha comida.

Hoje, se eu tivesse dinheiro e tempo sobrando, entraria em todos os cursos possíveis. Faria uma segunda graduação em gastronomia, aprenderia corte e costura, voltaria a pintar telas, faria tops de crochê para vender no Elo7 e melhoraria minhas habilidades no tricô. Esses interesses me rendem horas de conversas com as minhas avós, várias exclamações de “sua tia não sabe até hoje pregar um botão” e aproximadamente zero socializações com jovens.

Por fim, mas não menos importante, é hora de fazer uma revelação: eu dou risada da piada do pavê e não consigo me controlar diante de qualquer trocadilho infame. Gostaria, portanto, de agradecer aos meus amigos por relevarem todas as manifestações do meu humor de tiozão do churrasco.

Agora preciso desligar esse computador e ir deitar, porque minhas costas estão me matando!

melhores e possivelmente mais aleatórias combinações que já tive no tinder

noutros tempos, quando eu ainda era jovem e tinha energia para fazer profundas análises de caráter e personalidade de homens heterossexuais baseadas apenas em bios curtas, um punhado de fotos e eventuais interesses em comum, eu fui uma usuária do tinder.

é certo que nunca fui muito estável naquele catálogo humano e que apaguei minha conta mais vezes do que podemos contar nos dedos das mãos, mas ao todo, somando-se todos os períodos de uso do app, acumulei algumas histórias confusas, coincidências estranhas, várias vergonhas e conversas bizarras para compartilhar na mesa do bar.

agora, vamos fazer de conta que há uma garrafa de cerveja e uma porção de batatas entre nós e senta que lá vêm as histórias!

#1  c e r t o s  s o c i a l  m e d i a s: não vou me negar de que tenho orgulho desse like. em um evento de comunicação da minha universidade, um dos convidados foi um festejado social media que conseguiu transformar a página de uma prefeitura em uma estrela do facebook e arrancou milhares de suspiros da plateia. no intervalo, eu e meus amigos reparamos que o rapaz grudou no celular e logo nos perguntamos: “será que o palestrante está no tinder?”. fazia tempo que eu não usava o app, mas fiz o download rapidamente, deixei o raio no mínimo e, poucos segundos depois: o match aconteceu.

infelizmente, o famoso social media era tão tímido quanto eu.

#2 barman espetacular: depois que comecei a frequentar festas universitárias, pude rapidamente perceber quais eram as figurinhas carimbadas desse tipo de evento. eu e minhas amigas apelidamos nossas pessoas preferidas e passamos a sentir falta — e, por vezes, até ficávamos preocupadas — quando alguma dessas personalidades não dava o ar de sua graça em alguma cervejada. essa observação também se estendia a novos frequentadores. não frequentadores quaisquer, mas aqueles cujas presenças realmente mereciam ser notadas. foi assim que perdemos nossos corações para um belíssimo barman, que, felizmente, também apareceu na festa seguinte.

depois de um contato com muito ruído na comunicação, dei a sorte de encontrá-lo no tinder e logo soube que inteligência não era o forte do rapaz. o maior problema, porém, ocorreu porque ele passou tempo o suficiente sem acessar aquele rede social para eu enjoar da dinâmica do aplicativo e desistir de saber se ele apareceria na próxima festa.

apesar dos desencontros da vista, todas as raras aparições deste barman seguem sendo um espetáculo — pelo menos para os meus olhos.

#3 namorado de blogueira de moda: o comunicabeach do ano passado aconteceu no mesmo final de semana da maior micareta de florianópolis e o tinder na ilha da magia estava especialmente fantástico. o curioso sobre o funcionamento do app na capital catarinense é que lá as pessoas realmente conversam. não existe match apenas para coleção. cada nova combinação é seguida por algum papo.

depois de passar um dia inteiro na praia, eu e minhas amigas nos arrumávamos para uma festa à qual nem queríamos tanto assim ir. era um show do forfun, dress code branco e, do outro lado da cidade, um show de ivete sangalo estava prestes a acontecer. surpreendentemente, um dos meus matches — que parecia ser o rei do indies — estava em florianópolis justamente para ouvir grandes hits como “sorte grande” ao vivo. infelizmente, o “vamos nos encontrar” não foi o suficiente. até porque, eu precisaria vender um rim para assistir veveta.

depois que a conversa chegou na troca de números do whatsapp, nada passou de um oi-smiley-face durante alguns meses, até que ele me adicionou aleatoriamente também no snapchat. com acesso ao nome e sobrenome do moço, uma rápida stalkeada me revelou que ele namorava uma conhecida blogueira de moda brasileira.

#4 tindeiro comprometido: se existe um terreno traiçoeiro no tinder, este é o da tindada de conhecidos. você sabe quem é a pessoa, vocês têm amigos em comum, vocês se cumprimentam na rua e também são amigos no facebook. a aparição inesperada da pessoa no app de paquera te faz pensar “ah, ele parece ser legal” e um like pode ser fatal.

depois que arrastar um retrato do cara para a direita foi que eu me lembrei que parecia que ele estava em um relacionamento sério no site do zuckerberg. a combinação aconteceu não apenas no mesmo momento em que a informação foi confirmada, mas também ao mesmo tempo em que eu lia uma declaração de amor que destacava os sete anos de namoro.

bloqueei o conhecido no tinder e, assim que nos descombinei, recebi uma mensagem dele, cujo conteúdo nunca será descoberto, já que o app respondeu rapidamente aos meus comandos.

#5 o vizinho da amiga: este causo aconteceu antes do anterior, mas parece que eu não aprendi muita coisa. na casa das minhas amigas, vi o perfil de um vizinho delas no tinder e nós ficamos bastante confusas: ué, mas ele não era gay?

certas de que só havia uma maneira de comprovar nossa hipótese e, de quebra, fazer amizade com alguém que era simpático e parecia legal, tindei. o match foi instantâneo e eu jamais imaginei que pudesse encontrá-lo logo em seguida no elevador.

apesar dos meus diversos nãos para os convites dele para assistirmos ao brilho eterno de uma mente sem lembranças juntos, o moço insistiu por mais de ano e acabou se tornando uma companhia divertida para situações do tipo minha-amiga-está-conversando-com-o-cara-ali-e-não-quero-atrapalhar-vamos-bater-um-papo.

#6 migo do tinder: por muito tempo, a única certeza que eu tinha sobre fazer o tinder em maringá era que não importava quantas vezes eu ou minhas amigas excluíssemos a conta, o migo sempre seria nosso primeiro match. se resolvêssemos fazer uma nova conta de madrugada para um jogo, a combinação com o migo seria instantânea com todas nós.

a presença do migo ficou tão constante em nossas vidas, que até numa viagem aleatória de férias ele apareceu em forma de vizinho.

outras constatações sobre o tinder:

Reprodução

Reprodução

#1 em maringá, a situação sempre pode piorar;
#2 florianópolis é o melhor lugar para usar o tinder no brasil;
#3 as figuras das ruas do rio de janeiro são mais belas do que as imagens que vemos no app em terras fluminenses;
#4 perguntas supostamente esquisitas são as melhores para começar conversas;
#5 as pessoas precisam parar de usar foto de casal no perfil. ou melhor, precisam parar de entrar no app mesmo quando estão em um relacionamento sério.

apesar dessas experiências — e de algumas outras tantas –, o tinder só me rendeu um encontro e me deu a oportunidade de ouvir algo que eu achei que jamais ouviria: eu não estava preparada para um relacionamento sério.

rio de ninguém

ainda que te sambem os ritmos,
a nuvem teimosa te tapa
num céu cinzento.

rio das falas estrangeiras,
das ladeiras agudas,
do sol escondido,
e da gelada água imensa.

das almas que te habitam
(ou te escapam?)
na boemia dos teus arcos
e no lapso das tuas ondas,
que não acabem os ciclos —
tampouco o poema.

cidade efêmera,
dos risos deslumbrados,
dos passos compridos;
que o preto do teu feijão
não falte
nos pratos dos teus brasileiros.

Santa Teresa, 03.09.15.

Santa Teresa, 03.09.15.

Sussurros

#1
“A gente já vai…”
“Mas agora que vai melhorar?”
“Por quê?”

#2
“Já dormiu, neguinha?”
“Não, tava vendo Clube da Luta…”
“You met me at a very strange time in my life.”

#3
“Então quer dizer que você não está namorando, é?”
“É, ué…”
“Então você quer namorar comigo?”

#4
“Eu tenho medo.”

#5
“E você acha que isso vai dar certo?”
“We can work it out.”

#6
“Desculpa, eu sou uma pessoa ruim!”

TEMPO

— Como você tá?

Um drama digno de sertanejo vintage

Crise sempre foi uma palavra muito presente na minha vida. Crise existencial, crise de rinite, de sinusite, de identidade, de relacionamentos. Crise. Crise. Crise. Dizem que é normal passar por essas coisas na fase dos 20-e-alguma-coisa, mas tenho certeza que meu histórico deve potencializar isso e, acredite, a vida não tem amenizado em nada esse combo.

Quando a gente tá no ensino médio e um professor de matemática fala que o vestibular é level easy e que depois as coisas só pioram, a gente se recusa a acreditar. A minha geração (e talvez algumas outras mais próximas também) cresceu ouvindo clichês como “faça o que você gosta e não terá que trabalhar nem um dia sequer”, o que faz com que toda e qualquer declaração de um professor chato sobre o nosso futuro pareça muito equivocada, afinal ele deve ser amargurado porque não fez o que ama — convenhamos, quem amaria matemática?

O problema disso tudo não está na pressão do “faça o que você ama”, apesar disso ter uma pequena parcela de culpa no caos total. A grande questão é que fazer o que a gente ama, conseguir um diploma e se tornar bacharel em uma área realmente muito legal não é o suficiente. Posso parecer muito ingênua falando isso, porque é muito óbvio que uma graduação não vai me garantir a vaga da Miranda Priestly nem me tornar corajosa o suficiente para largar tudo e acompanhar uma turnê da minha banda preferida pra escrever uma matéria que a Rolling Stone pode ou não comprar, mas as pessoas realmente se esquecem de mencionar que depois da formatura o mundo se torna um lugar desolador.

Em uma camada superficial da vida pós-faculdade a gente encontra dilemas como: tentar a vida na cidade grande ou vender a alma pra um jornaleco local? Continuar estudando ou fazer o trainee de uma empresa? Virar freelancer ou abrir seu próprio negócio? Dúvidas desse tipo começam a aparecer nos últimos meses da graduação e podem durar algumas semanas depois da formatura, porque, pouco tempo depois desse ritual em que você abraça seus amigos e tira fotos com capelo, a vida real começa a puxar seu pé e o desespero por ainda não ter encontrado um emprego de carteira assinada que te pague pelo menos um salário mínimo começa a bater.

Por um golpe de sorte e alguma conspiração positiva do universo, o meu desespero pelo emprego passou há alguns meses. Agora eu trabalho de segunda a sexta em uma agência que não é de publicidade e convivo com pessoas bacanas que não me fazem querer enfiar uma caneta no meu ouvido durante oito horas por dia. É um bom cenário sim, eu admito. Entretanto, além de algumas das dúvidas da camada superficial que aparecem para me atormentar de vez em quando, eu ainda preciso lidar com uma crise que aparece a cada cadastro que eu preciso preencher e a cada pessoa nova que eu conheço (não que eu tenha conhecido muitas pessoas novas nos últimos tempos): eu não sei o que eu sou, nem para onde eu vou e posso até não dar em nada!

De volta para um longínquo ano de 2011, eu ouço as palavras de uma professora (que se tornou minha orientadora e também inspiração de vida) dizendo que eu estava começando o curso de Comunicação e Multimeios, o qual não me faria jornalista, nem publicitária, nem fotógrafa e tampouco cineasta. Foi assustador ouvir essas negativas assim na lata, mas persisti no horizonte da minha estrada e abri meu coração para uma graduação que se tornou meu grande amor.

Agora, quase seis meses depois de ter me tornado uma bacharela, sinto-me uma traidora toda vez que digo que sou jornalista e sempre acabo me lembrando de uma professora de português do colégio que dizia que era professora e não estava professora. Isso porque, embora eu trabalhe com jornalismo, eu sei que eu só estou jornalista. Não me formei em uma habilitação da comunicação social tradicional, não tive oito módulos de técnicas de redação jornalística e não acho nada justo com as/os colegas de área dizer que eu tenho a profissão delas/deles.

desculpa, migues

desculpa, migues

Eu sou comunicóloga, mas assim como o mercado ainda não entendeu o que faz uma profissional de Comunicação e Multimeios (principalmente em uma cidade-feudo como Maringá), eu ainda estou me descobrindo e tentando encontrar meu próprio espaço nesse caminho sem atalho. Pode até ser que eu encontre alguns sorrisos por aí, que me aconteça uma (outra) paixão e eu quero estar em paz com isso, entendendo que ser comunicóloga invariavelmente vai me fazer estar jornalista, publicitária, roteirista ou sei lá o quê.

No final das contas, isso tudo é sobre como eu vou seguir o sol para conviver da melhor maneira possível com essas diferenças da minha trajetória em relação às habilitações mais tradicionais. Preciso me lembrar mais vezes que essa é uma das maiores graças de ser comunicóloga: poder, com um toque do destino, encontrar  uma nova aspiração, o brilho de um olhar, um novo estado profissional e novos sonhos.

Apesar da tentativa de ser otimista, também acho válido enfatizar que seria realmente legal se as pessoas parassem com essa falta de carinho que são os “mas é a mesma coisa que jornalismo?”, “então você fez marketing?” e “já que você gosta dessas coisas de TV…”incansavelmente.

Pages so far: leituras de março a maio

Caras, nós temos um problema! Eu disse por aqui que pretendia escrever mensalmente um pequeno recap do que havia lido e, bom, eu sumi. A pior parte não é nem eu ter deixado de atualizá-las/os sobre as minhas leituras, mas sim o fato de que já estamos em junho, quase na metade do mês que marca a metade do ano, e eu não li nenhum livro que tenha merecido cinco estrelinhas no Skoob. Nenhum. Zero. Niente.

Agora eu só consigo ficar aterrorizada diante da perspectiva de possivelmente passar 365 dias sem ler nada que me tire o fôlego e exploda a minha cabeça. Só não digo que não consigo pensar em nada que possa ser pior do que isso porque, na verdade, o motivo pra eu ter acabado sabotando esse Pages so far poderia ser simplesmente eu não estar conseguindo ler nada, aí sim teríamos uma morte horrível.

Não é que eu esteja conseguindo ler pacas, porque não estou mesmo, mas não atribuo essa minha lentidão exclusivamente à falta de tempo — que eu tenho de sobra –, o grande problema mesmo é que nada me anima. Até o momento, nenhum livro me fez passar horas lendo. Nenhum personagem me cativou ao ponto de eu resolver que valia a pena passar da minha hora de dormir para avançar algumas páginas. Nenhum autor me fez sentir inveja por seu estilo narrativo incrivelmente sensacional. Existe vida depois de Middlesex? Gente, eu não fiquei numa ressaca literária tão ruim assim nem depois de ler Cem Anos de Solidão. COMO? FAZ????

nem eu, rory!

nem eu, rory!

Ok. Vamos fingir que estou recomposta e que posso falar com alguma sobriedade sobre o que aconteceu na minha estante de março até aqui!

Harry Potter: como já fiz um pequeno relato sobre minha experiência de leitura por aqui, não vou me estender muito para contar que finalmente terminei de ler a série de J.K.. Depois de muitos anos de atraso (observem que pontualidade está longe de ser meu forte), eu consegui entender todos os feels que as/os fãs do bruxinho tiveram e, caramba!, como eu me arrependo de não ter sido uma daquelas malucas que foram assistir às estreias dos filmes usando capas e segurando varinhas!

Ainda não assisti aos últimos filmes e nem me lembro ao certo em qual sequência eu parei. Isso merece um dia de maratona muito caprichado, que há de acontecer em algum momento!

Sábado, de Ian McEwan: recentemente, estive numa pira por Downton Abbey e aconteceu que, assim que terminei de assistir a todos os episódios já existentes da série, Princesa Carlota Elizabete Dayana nasceu. Eu estava com vivendo uma febre pela realeza britânica. Eu queria mais britânicos na minha vida.

Como não releio sinopses antes de finalmente ler algum livro adquirido, resolvi ler Sábado achando que ia encontrar um universo semelhante ao de Reparação, a maior obra do autor. Estava enganada, mas tudo bem, porque esse é um ótimo livro. McEwan conta com riqueza de detalhes todas as desventuras que cabem dentro de meras 24 horas da rotina de qualquer pessoa normal.

Todas/os nós estamos sujeitas/os a um acidente de trânsito, a reencontrar parentes ou sentir uma espécie de euforia por ter se sentido compreendida/o por uma música. A vida é assim e Sábado é uma excelente ilustração daquele papo de “a felicidade está nas coisas mais simples”.

O que eu mais admiro na escrita do McEwan é a sua capacidade de formular descrições tão completas e cheias de sensibilidade sem cair na monotonia de contar quantas vezes uma mosca bateu a asa esquerda. Além disso, seus livros (pelo menos os dois que já li) são embasados por pesquisas biológicas e médicas muito cuidadosas. O autor realmente se preocupa em te fazer mergulhar num ambiente.

Apesar disso tudo, Sábado não foi cinco estrelas. Sábado ganhou quatro estrelinhas porque, apesar de ser maravilhoso, ainda não é Middlesex. Desculpa, Ian!

Contos de Lugares Distantes, de Shaun Tan: tinha muita expectativa para ler esse livro e, felizmente, soube esperar para devorá-lo em um momento em que estivesse precisando sentir um quentinho no coração.

Karina me presenteou com essa obra “infantil” e com uma das dedicatórias mais significantes que já recebi, o que o torna ainda mais especial. Sim, escrevi infantil entre aspas, mas de maneira alguma por desmerecer a literatura destinada às crianças ou por não concordar que a obra seja infantil. Os mini-contos escritos e ilustrados pelo australiano fazem justamente o contrário: apostam e instigam a inteligência de pessoas de todas as idades, principalmente por estimular a imaginação com incríveis expedições improváveis e por conseguir causar comoção com a simples — e jamais simplista — história de uma bolinha de papel que abrigava poesias e segredos.

Esse sim é um cinco estrelas no meu ano, especialmente pelo afago que conseguiu fazer na minha alma. Infelizmente, porém, não foi um livro capaz de me tirar dessa inércia maldita que se apossou dos meus hábitos de leitura.

As Vozes do Sótão, de Paulo Rodrigues: yay, bota-fora da Cosac Naify! Yay, vamos comprar livros desejados há muito tempo, mas que jamais sairia dessa lista por ser curtinho demais para merecer tanto investimento, mesmo com suspiros de “olha essa edição!!!”. Sim, a edição é linda, como (quase) tudo que a Cosac faz.

O plot d’As Vozes do Sótão é muito bom! A narrativa causa uns fluxos de pensamento, desperta dúvidas e simpatia pelo protagonista. Parece promissor, não é? Pena que só parece. Achei a história muito mal aproveitada pelo autor e terminei a leitura com uma deliciosa sensação de tempo perdido combinada a um belo “como eu sou idiota de ter gastado meu dinheiro nesse livro, porque A CAPA DESCOLOU DO MIOLO!!!!!!!!”.

Essas são as experiências completas que posso compartilhar até agora. No momento, estou me decepcionando com O Rei de Amarelo, do Chambers, e iniciando Telegraph Avenue, do Chabon. Sigo lendo aos poucos, conforme a inspiração e a necessidade de compreensão aparecem, O Livro das Religiões.

Espero voltar logo e não apenas para outro Pages so far.